Minha Filha Diabética

Uma vida mais doce após o diabetes tipo 1!

Recado para os amigos diabéticos, familiares e afins!

3 Comentários

Recebi esse depoimento e tô passando adiante!! Obrigada Daisy!

Texto: Daisy Monte (Jornalista)*

Colega diabético, nós temos algo em comum. Fazemos parte de uma estatística nacional de 17 milhões de brasileiros diagnosticados com a doença onde o pâncreas não produz insulina. Esse número equivale a 10% da população do Brasil. Segundo os estudos científicos europeus, outros 40 milhões de brasileiros estão na faixa de risco de tornar- se diabéticos após os 50 anos de idade. São números significativos e alarmantes que o nosso governo não enxerga. O descaso como nossa população diabética é total. Somos ignorados. O Brasil ocupa a 9ª posição no ranking mundial.

A Lei Federal de número 11.347 de 27/ 09/2006 “Dispõe sobre a distribuição gratuita de medicamentos e materiais necessários à sua aplicação e à monitoração da glicemia capilar aos portadores de diabetes inscritos em programas de educação para diabéticos”. Essa lei é simplesmente ignorada. Quem depende da distribuição gratuita da medicação por parte do governo enfrenta filas e nem sempre obtém resultados. Diabéticos diariamente vão aos postos de saúde, enfrentam filas e lá recebem a insulina humana (NPH), a mais comum e mais barata e ainda sim, a falta é rotineira. Somos órfãos de políticas públicas em todos os níveis federal, estadual e municipal.

Em alguns casos os nossos pâncreas são preguiçosos, ou seja, funcionam lenta e improdutivamente. Em outros ele não cumpre o seu papel e nos deixam glicosados. Os dois casos precisam sofrer reposição de insulinas via oral ou injetável. Os portadores desse equipamento defeituoso DM-I e DM-II (Diabetes Mellitus tipo 1 e Diabetes Mellitus tipo 2) são pessoas consideradas fora do padrão normal de saúde. Mas lembrando a dupla, Caetano Veloso e Gilberto Gil “… de perto, ninguém é normal”, ainda resta esperança. Ponto para eles que acertaram na frase. Ponto para nós que somos conhecedores da nossa deficiência e vamos em frente.

Num supermercado, diante de tantos produtos para mim proibidos, comentei com uma amiga sobre a minha deficiência. Ela pareceu nem ouvir. Todo o tempo ela era cumprimentada pelas gentes que passavam, pois como médica famosa é conhecida por meia cidade. Final das compras ela rompeu a indiferença diante dos meus lamentos e disse: “Viu todas essas pessoas que me cumprimentaram? Pois bem, fiz um levantamento mental e, com exceção de duas delas, todas tomam algum tipo de medicação. Portanto, você é como elas, um ser especial, que sabe se cuidar e se capacita para viver bem!”

De início fiquei chocada diante da lógica fria e racional, mas logo digeri a sentença, abri os olhos para o mundo que estava ali e decidi que queria usufruí-lo da melhor maneira possível. E lá se vão 20 anos! Enfrentei meu tratamento, comecei a estudar o assunto e a conhecer meu metabolismo. Importante era procurar viver com qualidade. O meu lema de vida passou a ser: sou normal porque conheço a minha deficiência e assim posso administrá-la. Nós diabéticos, temos nossos médicos para nos tratar, mas quem nos cuida somos nós mesmos. Nós diabéticos temos que ser independentes de outras pessoas no cuidar da nossa deficiência.

A minha deficiência em produzir insulina, me fez ser uma mulher disciplinada e organizada.

Cumprir horários de medicação e de alimentação foi determinante no processo de cuidar-me. Meus horários de refeições – seis ao dia são sagrados e não me atrapalham em nada. As pessoas do meu convívio diário são sabedoras dos meus limites e dos meus horários e muitas vezes me alertam para algum cuidado a mais. Diabetes requer isso: atenção e cuidado. Nada mais. A medicação é cara, controlada e sobre isso o Brasil precisa planejar e executar políticas públicas de atendimento aos portadores dessa doença. Afinal somos em número significativos nas urnas.

Sou especial, e tiro proveito disso. Por ser assim, adocicada, é que me desdobrei no cuidado da minha saúde e resultou numa figura mulher que está sempre em dia com o que o mundo chama de vaidade. Por ter que cuidar do meu pâncreas ajudando-o a trabalhar, por ser disciplinada e consciente das minhas restrições é que aprendi a cuidar melhor da minha pele, do meu cabelo, dos meus pés, das minhas unhas, dos meus dentes, dos meus olhos… Por dentro e por fora. Sou profissional, dona de casa, mãe três vezes… Devido à disciplina, estou sempre pronta para qualquer programa.

Anos após o papo no supermercado, agradeci aquele dito que me fez mudar o roteiro da minha vida e como resposta ouvi mais um ensinamento: “O médico é como o amigo, só é creditado quando lhe é dado ouvidos. Você é que me ouviu”. Espero que você, colega diabético, entre no seu infinito interior e reflita. Lá moram as fraquezas, mas ao lado delas também moram a decisão e a coragem para enfrentar essa ou outra doença qualquer. É só deixar que essa dupla lidere a comissão de frente e a vida de cada um será digna de sucessos e de vitórias.

Encare-se como tal e faça valer a sua condição de especial. Cuide-se.

O ato de injetar-me não me incomoda. Faz parte da rotina dos hábitos de higiene. Acho chique não beber, não fumar e comer com parcimônia! Em programas gastronômicos, a alimentação restrita e a água bebida são focos de atenções: todos disputam pagar minha conta! Na cozinha arraso nas receitas de sobremesas e docinhos diet! Nunca saí do peso ideal para minha altura! O item mais difícil de ser cumprido é o exercício físico. A rotina da academia não se tornou permanente. Entre idas, vindas e retornos, fica tudo na promessa. Mas eu chego lá, afinal, “… de perto ninguém é normal…”

* Mãe de três filhos já adultos, diabética (Mellitus 1) há 20 anos e de bem com a vida! Nenhuma complicação pelo menos até agora! Escrevo essa carta para os colegas diabéticos que se acomodam na ignorância da doença sem interesse em conhecê-la e encará-la. O desconhecido é que nos remete ao medo. O medo nos leva às complicações e ao descaso e esse, à morte prematura. O conhecimento da doença nos permite colocá-la sempre sob o nosso comando. A cada dia digo: “Olá amiga, bom dia! Vou à frente e você se mantenha onde está. Quem comanda a minha vida sou eu!”.


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3 pensamentos sobre “Recado para os amigos diabéticos, familiares e afins!

  1. É muito raro ver um diabético consciente como você, Deisy. Assino em baixo seu depoimento. Depois das cabeçadas iniciais, logo após descobrir que tinha sido ‘premiado’ com o diabetes tipo 2, tenho tentado trilhar um caminho parecido com o seu. É possivel, sim. Na medida que aceitamos a situação, deixamos de nos sentir vítimas e começamos a fazer o que pode ser feito, o quadro muda, e muito, para melhor. Seu testemunho lembra-me um outro depoimento de portador de diabetes com o nivel de conscicência parecido com o seu, que chegava a agradecer por ter tido esse “probleminha” de saúde. Graças ao diabetes, dizia ele, ele passou a se cuidar muito melhor e aprendeu muitas outras boas coisas na vida. Parabens, pelo seu exemplo de aceitação, coragem e de amor a vida.

  2. Obrigado, Daisy. Sou pai de uma linda menina, de 8 anos, que há um ano foi diagnosticada com o Diabetes tipo 1. Seu depoimento é um grande estímulo.
    Parabéns!

  3. Tenho 40 anos de diabetes tipo 1 e me senti feliz em ler o depoimento porque as pessoas pensam que sou de outro planeta pela minha disciplina e modo de levar o diabetes. Até hoje aprendo sobre diabetes e o conhecimento, a educação em diabetes com uma família que nos apóia é fundamental para um futuro feliz e NORMAL.

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