Minha Filha Diabética

Uma vida mais doce após o diabetes tipo 1!

Como cada um lida com a descoberta do diabetes.

3 Comentários

Estive na ADJ no sábado no grupo de crianças diabéticas. Levei a Duda dessa vez e das próximas todas.

As famílias que estavam nesse dia, não estavam no mês passado e vice versa.

Conheci uma moça de 25 anos, (que aparenta uns 30 e poucos) que mora em cotia, o filho dela tem 2 anos e 6 meses e foi diagnosticado em Março desse ano. O marido, fanático religioso, largou a mulher e a criança por “achar que o filho estava possuído por uma força do mal”. Ela não quis entrar em detalhes e eu achei melhor mesmo. Fui sentindo uma raiva tão grande desse homem e de religião e achei melhor nem falar mais sobre o assunto. Enfim… essa moça, não tem pai nem mãe e pelo que percebi ninguém da família próximo a ela. O marido foi embora (Graças a….). A escola que o garoto estudava disse que ele não poderia ficar mais lá. Ela está desempregada, vivendo com a grana que o ex manda (pelo menos isso) e mais um tanto que ela guardou quando saiu do emprego pra cuidar do filho. Nenhuma escola de cotia aceita o filho dela. As que se propõe a tentar são particulares e ela não pode pagar. Sabemos que TODAS escola tem por obrigação que aceitar toda criança com necessidade especial e a parte jurídica da ADJ se disponibilizou a ajudar nesse aspecto. Essa mãe estava firme e forte, claro, passada com a situação em que se encontra mas aparentemente lidando bem com isso. Não tem faculdade. Sempre trabalhou como vendedora. Pela conversa, ela está sendo bem orientada. Apesar de não saber que o filho pode chupar uma bala ou pirulito sem maiores problemas.

E eu enquanto conversava ia pensando em como ajudar, arrumar emprego pra ela, sei lá, fazer alguma coisa por essa mulher e essa criança.

Um pouco depois, chega uma… moça… eu chamo todo mundo de moça. Me parecia beirando os 40, mas como eu errei feio com a primeira, melhor ficar na minha. O filho também com 2 anos e meio diagnosticado há um mês e meio. A mulher estava um caco. Veio acompanhada por uma enfermeira (ou auxiliar de enfermagem). E eu,metida e sempre muito curiosa, quis saber quem era a pessoa, o que fazia com ela.. enfim… e ela acabou se apresentando. É uma pessoa que a mãe contratou pra ajudar. Ela fica com a família todos os dias até a noite. Tem folga 1x por semana. Essa senhora sempre trabalhou com idosos e diabéticos tipo 2. Já fiquei com meu pé meio atrás. [Filha de médico é uma m… ] e ao ser perguntada pela psicóloga sobre o que tem achado de diferente entre o DM 1 e 2 ela disse que NADA !!!! Que apenas a medicação era diferente, uma era injetável e a outra comprimidos e que a dieta era basicamente a mesma. A psicóloga engasgou e eu, agora com os DOIS pés atrás, me segurei pra não falar nada, indignada. Perguntei: Você trabalha o dia todo? É sozinha? Porque precisa de uma enfermeira o tempo todo com você? [e essa senhora que ficava cuidado do filho, com o lanche, com as coisas que ele brincava e a mãe sentada, com os ombros caídos pra frente, sabe… exausta].. e ela.. “não… é que eu estou com depressão, sabe...”  Hum…. sei… e eu, preconceituosa já fiquei quieta porque sabia que se abrisse a boca ia falar demais.

E só pensei: Se essa mulher não tivesse grana pra ter alguém cuidando de seu filho, ela não teria depressão. É o que aconteceu comigo e provavelmente com essa primeira moça que falei. SOMOS SÓ NÓS. NÓS TEMOS QUE CUIDAR, ALIMENTAR, SUSTENTAR, APLICAR INSULINAS, MEDIR GLICEMIAS, o dia fica tão curto e exaustivo, que não sobra tempo pra lamentações, pra muito chororô… não que não tenhamos sentido, sentimos muito, choramos muito, pensamos inúmeras besteiras, mas sempre tinhamos muitas coisas para serem feitas !!!

E fiquei mais sentida pela criança. Sem saber o que se passa, tendo que tomar injeções de uma pessoa desconhecida, aparentemente sem muito carinho e afeto e vendo a mãe infeliz… eu lí num livro dia desses uma coisa que fez muito sentido pra mim tanto como mãe, observando minhas filhas, como filha, lembrando de situações com meus pais… dizia que “… As crianças, por outro lado, apreciam especialmente o bom humor dos adultos que convivem. Já conhecemos a enorme importância do sorriso da mãe para o bebê e isso não acaba com a infância. Também sabemos, por meio daqueles que investigam a neurofisiologia cerebral, que alegria, riso e bom humor constituem nutrientes imprescindíveis para o bem-estar do organismo e estímulos poderosos para a qualidade da vida psíquica. E deveríamos saber que, para um ser em crescimento, atento a todos os sinais que o informam da habilidade do mundo, a alegria “dos grandes” é uma mensagem de esperança, é uma picada cúmplice, é o melhor polivitamínico de todos os tempos.” – Livro: O que fazer com as crianças? do Rolando Martiñá

Essas duas mães morrem de medo de agulhas. Não se imaginam tomando injeções. Como elas podem passar segurança pro seu filho? É claro que essas crianças esperneiam, se jogam no chão, fogem, todas as vezes que precisam da insulina.

E eu novamente pensando: E aqui, uma mãe que simplesmente, pra falar o português bem claro, CURTE uma agulha. É toda tatuada, já teve piercings, se tatuou sozinha com agulha e nanquim aos 15 anos, foi instrumentadora com o pai ortopedista dos 16 anos até os 21. Tem quatro furos em cada orelha, fez 3 cirurgias plásticas…… COMO AJUDAR ESSAS PESSOAS A PERDEREM ESSE MEDO E PASSAREM SEGURANÇA PROS SEUS FILHOS? Isso deve ter me ajudado muito. Eu não tenho pena nenhuma de furar a Vittoria [confesso que não gosto não, preferia fazer cócegas], mas se é pro bem dela… tem que ser feito. E que seja da melhor maneira possível…. e aí quando contei que eu deixei a Vivi e a Duda me espetarem com as seringas e agulhas da caneta, nos lugares de aplicação, pra eu também saber que dor era essa, qual era a sensação… essas mães quase caíram pra trás !!!! Ué.. se eu preciso de argumentos pra justificar aplicações e manhas.. tenho que saber do que estou falando… Minhas filhas não tem medo de injeção, de tirar sangue, de limpar machucado. Meço a glicemia da Vittoria e aplico insulina enquanto ela dorme e ela nem ‘tchun’. Queria poder ajudar essas mães de alguma forma pra que essas aplicações fossem menos dolorosas ao coração.

Quando me perguntam como foi quando fiquei sabendo, como reagi, eu digo que a primeira coisa que eu falei foi: “Putz !! Tá ! Mas o que eu tenho que fazer agora?” E fui fazendo. Digo que minha ficha ainda não caiu. E acho que nem vai. O que é cair a ficha? Se tocar da gravidade da doença, ter depressão? Ficar puta da vida? Aahhh… disso tudo eu sei e já senti um pouco… mas não dá tempo.

Eu também digo claramente que não aceitei a doença, que odeio o diabetes, quem aceita um filho DOENTE??? O que é aceitar a doença? Se conformar??? Não me conformo, não. MAS EU TENHO QUE CUIDAR DELA, E MEU FOCO É ESSE, e fazer o possível pra que ela se sinta bem, e lide bem com tudo isso e trate o diabetes como outra necessidade básica qualquer, comer, dormir,tomar banho,  fazer xixi e cocô e se limpar, medir glicemia e tomar insulina…. coisas que fazemos todos os dias sem nem pensar… faz parte !!

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3 pensamentos sobre “Como cada um lida com a descoberta do diabetes.

  1. Olá Nicole!
    Gostei do conteúdo exposto aqui. Muito rico – excelente!
    Fiquei preocupada com a observação referente à Depressão, sabe!
    Também já pensei assim como você: “Depressão é preguiça ou falta de ter o que fazer.” Mas hoje tenho uma outra visão sobre o assunto.
    Há uma similaridade entre o Diabetes e a Depressão, sabia? Ambas surgen em detrimento de uma redução de hormônios importatíssimos para vida. O pâncreas não produz insulina, logo o organismo não consegue metabolizar o açúcar, em seguida a pessoa padece. A Depressão: o cérebro pára de produzir serotonina, logo o corpo passa por modoficações, em seguida a pessoa passa a sentir-se profundamente triste e até mesmo começa a sentir dores musculares e uma fraqueza intensa e inexplicável. Há muito medicamentos utilizados para tratar a depressão, como os recaptdadores de serotonina.
    Sabe Nicole, tenho 26 anos e há três tenho diabetes – sou insulinodependente. Quase perdi minha vida, tive depressão, sentia dores em lugares que sem sabia que existiam, quase perdi as esperanças. Mas este sofrimento acabou qdo começei a me tratar com a minha atual médica. Hoje vivo normalmente, mas ainda me trato com antidepressivos. Sabe, o sentir é algo pessoal e instransferível, por isso é importante demonstrar empatia, colocar-se literalmente no lugar de outrem. Ás vezes é difícil, mas é preciso tentar.
    Grande abraço,
    Karin

  2. Oi, Nicole! Parabéns por este espaço. Preciso listá-la lá no “Viver com Diabetes”. Beijos.

  3. Realmente é bem isso, devemos viver o hoje o amanhã será um novo dia!!!

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